Espaço Cuidar

Clínica de Psicologia Existencial
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Numa altura em que vivemos uma crise na psicopatologia, nunca é demais retomar o pensamento e o trabalho de algumas figuras de vulto que, num passado próximo, muito fizeram em prol desta ciência básica da Psiquiatria.

Hoje, vou-me ocupar de Eugène Minkowski. Este autor terminou os estudos médicos em 1909, tendo sido atraído, quase de imediato, pelas questões filosóficas, as quais o afastaram da medicina, tendo sido a guerra que o fez retornar às questões médicas e, particularmente, à psiquiatria.

Neste domínio, distinguiu-se por um projeto fundamental de investigação em psicopatologia, tendo marcado uma época. Sendo um bergsoniano convicto, desde muito cedo se preocupou, no plano científico, com as questões do tempo. Já em 1914 termina um estudo intitulado Les éléments essentiels du temps-qualité, trabalho nunca publicado mas que anunciava as suas preocupações filosóficas relativamente à questão do tempo. No pós-guerra retoma o problema do tempo, trazendo-o agora das “alturas” do pensamento filosófico para um nível dos fatos observáveis e, mais particularmente, dos fatos patológicos. Minkowski propõe uma releitura da psicopatologia em torno das questões ligadas ao tempo, afirmando que “o fato de poder aplicar os dados gerais sobre o tempo aos fatos psicopatológicos não só não os degrada como, pelo contrário, os torna mais fecundos, os anima de uma nova vida” (Minkowski, 1933, p. 6).

Foi deste modo que se escreveram as mais belas páginas de psicopatologia descritiva e compreensiva, guiadas metodologicamente pela fenomenologia e enraizadas numa abordagem das coisas da vida claramente bergsoniana. A noção de tempo vivido é, neste domínio, o conceito central do pensamento deste autor. Enquanto conceito unitário estruturado, o autor distingue-lhe setores:

(1) setor das antiguidades e das coisas precárias ou passado remoto;

(2) setor das nostalgias ou passado mediato;

(3) setor dos remorsos ou passado imediato;

(4) setor atual ou presente;

(5) setor da expectação e da atividade ou futuro imediato;

(6) setor dos desejos e das esperanças ou futuro mediato;

(7) setor da oração e dos atos éticos ou futuro remoto.

Na sua transposição para o plano clínico, o conceito de tempo vivido caracteriza-se pela

(1) temporalidade, organização temporal do ser humano;

(2) presentificação, modo de transformar cada momento atual em presente;

(3) ritmo psíquico;

(4) apreciação do curso do tempo e

(5) as frustrações que o tempo impõe.

A aplicação à psicopatologia clínica destas noções ocupou algumas obras do autor (Le temps vécu, PUF, Traité de Psychopatologie, Inst. Synthélabo, Vers une Cosmologie, Payot et Rivages, Audelà du Rationalisme Morbide, L’Harmattan, La Schizophrénie, Payot et Rivages), sendo difícil, em poucas linhas, traduzir o pensamento de um autor com tão vasta obra. Por isso, ilustraremos o contributo deste psicopatologista através da aplicação do seu pensamento e dos seus achados ao mundo do doente deprimido.

Minkovski, ao considerar a depressão como uma doença do tempo vivido, parte da evidência clínica segundo a qual no doente deprimido o futuro está bloqueado. Não se trata da sucessão cronológica dos momentos de tempo que está bloqueada, mas, antes, a propulsão para o futuro.

Este bloqueio do futuro deixa o doente deprimido numa situação parecida com a de um “condenado à morte”. O doente tem a impressão de caminhar negativamente em relação ao tempo, revelando uma alteração do sincronismo vivido entre o mundo e a consciência, entre os outros e ele próprio. Assim, ultrapassado pelo curso do tempo, é rejeitado para o passado, o que cria as condições propícias para reatualizar os conflitos do passado e para reviver os insucessos pessoais. Quanto ao futuro, também ele sofre uma modificação profunda: trata-se de uma paragem do ato projetado pela imagem intelectual deste ato. Enquanto que na vida normal a previsão do resultado não paralisa os nossos projetos (no sentido de persistir uma espécie de “assimetria fundamental” entre o futuro e as previsões), no deprimido estes dois aspectos da temporalidade não se equilibram.

Na depressão domina uma espécie de “retroatividade do tempo vivido”, como Strauss (1971) nos elucida, a qual condiciona um sentimento universal de vazio e constitui a substância da intensa monotonia que estes doentes vivenciam. Monotonia que é vivida como uma repetição eterna do idêntico que, por sua vez, conduz ao sentimento de náusea da vida. O presente, soldado ao passado, não renova nada. É sempre o mesmo presente ou o mesmo passado que dura; o tempo não parte de nenhuma parte, nada se afasta nem se aproxima.

É neste sentido que o deprimido “se retrai”, ou como Henri Ey (1954) refere, “a pequenez, a exiguidade da consciência do deprimido e do seu mundo são dados como expressão de uma redução, ou melhor, de uma humilhação que ele inflige a si próprio”. Isto é, o deprimido não só tem dificuldades de existir como a sua saga consiste no resistir. Não é a vida que o abandona, mas antes é ele que abandona a vida, acabando por dispor de uma margem muito precária de existência.

Concentrado sobre o vazio da sua pessoa, do seu corpo e do seu pensamento (seja inibido – ficando imobilizado no seu “lugar” –, seja angustiado – ficando perturbado pela vertigem), ele hesita em cada instante no abismo aberto sob os seus pés, cai num buraco negro, que não é mais do que a recusa da existência consequente a uma absoluta renúncia.

A depressão é, nesta ótica, uma paragem, uma imobilidade patética, uma suspensão da existência, uma síncope do tempo.

Se, em qualquer um de nós, o tempo funciona como uma forma de existência que pela sua irreversibilidade fatal nos determina como uma força exterior a nós mesmos, no deprimido, o tempo, sendo absolutamente fatal, submete a existência a uma necessidade tão absoluta que acaba por torna-la impossível. Por isso, a depressão constitui uma fatalidade, no duplo sentido que a palavra encerra: inevitável e catastrófica. Fatalidade em que o tempo não pode ser senão uma eternidade do passado, que não passa. Ocorre deste modo uma inversão da corrente da intencionalidade a qual, em vez de se apresentar no presente e constituir uma estruturação que possibilita a projeção no real dos projetos da existência, se volta ao contrário, para o passado e sob a forma de um peso, ou de uma verdadeira “entropia” que degrada a energia da ação e da existência. Sendo a confiança, nas palavras de Tellenbach (1961), a base da relação do homem consigo mesmo e o fundamento da sua relação com o outro (ou seja, a base de toda a iniciativa), o doente deprimido está impossibilitado de empreender uma antecipação positiva e ativa, decorrente do fracasso vital da sua confiança.

Outro aspecto desta doença do tempo refere-se às características próprias da depressão ansiosa, na qual o doente vive uma espera ansiosa do futuro. Esta espera é também uma projeção da fatalidade, pois estar angustiadamente à espera do que vai acontecer, é viver sob a forma de uma antecipação, que é no fundo uma consequência do inexorável do passado, sob a forma de amplificação pejorativa que aumenta, e dilata até ao infinito, o sentimento de fatalidade. A impossibilidade de atuar transforma a antecipação positiva em espera, a qual sempre abre espaço para a ansiedade. Note-se que a espera apresenta um carácter passivo que a distingue claramente da esperança (o ato de esperança é duplo, comportando a espera e a confiança). É neste sentido que se pode afirmar que no doente deprimido a esperança se degenerou em espera passiva e ansiosa pela perda da confiança vital no futuro. Esta perda traduz-se, no plano clínico, pela incapacidade de esperar o que ainda não se atingiu.

Após esta curta incursão por outro olhar sobre o mundo do deprimido, olhar que nos lega uma visão compreensiva da sua psicopatologia, podemos afirmar, ao estilo de síntese do pensamento de Eugène Minkowski, que o próprio do mundo do deprimido é esta desestruturação temporal que se funda na essência da ação. Dito de outro modo, a depressão enquanto doença do tempo vivido nos remete para uma anomalia da estrutura ética do ser.

Referências

Minkowski, E. (1933). Le temps Vécu. Paris: PUF.

Straus, E. (1971). Psicologia Fenomenológica. Buenos Aires: Paidos

Ey, H. (1954). Études Psychiatriques. Structure des psychoses aigües et destructuration de la conscience. Paris: Desclée de Brouwer.

Tellenbach, H. (1961). La Melancolia. Visión histórica del problema: endogeneidad, tipologia, patogenia y clínica (Trad. Guera Miralles, 1975). Madrid: Ed. Morata.




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