Minha experiência surge com minha própria famÃlia, onde as pessoas viveram e vivem muito, a exemplo de minha avó, falecida aos cem anos, que até os 95 ainda era uma senhora lúcida. Talvez seja ela mesma, na verdade, a fonte de inspiração deste trabalho, sem mencionar amigos muito especiais que, avançados na idade, me transmitiram sabedoria e a alegria do encontro com a vida, do encontro de um projeto de vida, com zelo e amor por nós mesmos e por aquilo que somos capazes de criar.
Meus clientes que me procuram sem saber mais o que fazer com suas vidas, mas com vontade de continuar a viver, me mostraram a possibilidade de tomar sempre a vida em nossas mãos. Mostraram-me que é possÃvel ao indivÃduo, a qualquer tempo, apropriar-se de si mesmo, à medida que é capaz de dar significado e resignificar sua própria existência. Esse trabalho tem sido muito enriquecedor pessoal e profissionalmente.
“Penso que lutamos contra o tempo”, disse-me um cliente, certa vez. Mas acrescentou: “antes isso me deprimia; hoje me traz força e coragem para seguir em frente e buscar prazer e realizações”. Outro cliente observa: “Fui professor muitos anos. Hoje não passo de um aposentado. Aqui no Brasil é interessante: advogado, médico e engenheiro quando se aposentam continuam ‘Dr.’. Professor vira aposentado”.
O processo de exclusão que vive o idoso é cruel. Não se considera a riqueza de vida e a experiência que eles têm a nos passar. A grande maioria deles, ou de nós, acaba por desenvolver doenças crônicas degenerativas, como artrose, osteoporose, pressão arterial alta, além de depressão, doenças auto-imunes, etc. Mas quando buscamos a compreensão do feitio de vida e visão de mundo que constituiram a sua existência, verificamos que não se trata de “coisas de velhice”, mas apenas uma das muitas possibilidades que se poderia estar vivendo nesta fase.
O cuidado conosco começa, na verdade, com a prevenção, que deveria iniciar na juventude: cuidar da alimentação, fazer exercÃcios fÃsicos, cuidar das nossas emoções e sentimentos. Podemos encarar nossa finitude com qualidade de vida, e enfrentar nosso último exercÃcio, o de morrer, com o êxito de nossa existência. Nem viver em função da morte, sempre próxima, nem, por outro lado, ignorá-la. Esta é uma tarefa para a vida toda, mas freqüentemente nos esquecemos de incluÃ-la em nossos projetos existenciais.
Meus clientes vão aos poucos se descobrindo e percebendo que um dos possÃveis caminhos de abertura para eles é o de se escutar, de abrir-se para suas possibilidades diante da vida.
Tenho um pouco de receio ao nomear 3ª idade, 4ª idade, idoso, etc. Muitas vezes as próprias referências viram rótulos e geram preconceito e desintegração, onde o objetivo é olhar melhor o ser humano em suas múltiplas dimensões e buscar a compreensão da possibilidade de um viver melhor com a redescoberta de quem se é.
É preciso ver esta fase da vida como mais uma, entre todas as que o ser humano atravessa. A sabedoria que se armazena ao longo dos anos é a vantagem que pode nos fazer minimizar as limitações fÃsicas inerentes a esta etapa.
O Brasil está se tornando grisalho, com o aumento da expectativa de vida, enquanto o discurso que se ouve é que se trata de um paÃs jovem. Deparamo-nos com o despreparo da estrutura social para se adequar e fornecer a qualidade de vida necessária à s pessoas que estão hoje com mais de 60 anos. Vivemos numa estrutura massificante, onde a singularidade é ainda muito ignorada. Assim, a insegurança de nossos idosos surge, não só diante de suas limitações, mas também diante de um mundo que não está se preparando para abrigá-los.
A maioria destas pessoas sente-se incomodada em pedir auxÃlio para ver preços em lojas, subir em ônibus ou escada rolante, atravessar a rua. E quando pedem, são muitas vezes alvo de zombarias. Parece que negamos esta fase de nossas vidas. Negar o idoso é negar a si mesmo, pois aqueles que não morrerem jovens estarão enfrentando esta etapa da vida. Heidegger nos diz, em “No Caminho do Campo”: “O perigo ameaça que o homem de hoje não possa ouvir sua linguagem. Em seus ouvidos retumba o fragor das máquinas, que chega a tomar pela voz de Deus. Assim o homem se dispersa e se torna errante”.
Não é só aquele que está envelhecendo que não se ama e não se reconhece. Nós, que com eles convivemos, também não gostamos da velhice, relutamos em amar nossos cabelos brancos e a reconhecer a sabedoria que eles trazem. Não é considerada a possibilidade de se manter em crescimento, pois o que nos norteia é que envelhecemos à medida que crescemos, quando podemos e devemos crescer à medida que envelhecemos. Heidegger nos lembra que “O simples guarda o enigma do que permanece e do que é grande. Visita os homens inesperadamente, mas carece de longo tempo para crescer e amadurecer” (O Caminho do Campo).
O idoso é um ser total e não deve se deixar vencer. Lembro-me de uma cliente: “Não me sinto velha. Agora, aos 70 anos, é que descobri o começo da vida. Se meu joelho dói, eu vou procurar o que fazer, mas de repouso é que não vou ficar. Imagina! Logo acabo não andando”. Nesse caso, a dificuldade moveu o desafio e aguçou o espÃrito de luta. Ficar em casa, recusando-se a sair, ou sob a guarda superprotetora dos filhos significa ficar à margem da vida. É preciso compreender que viver é arriscado e neste caso estamos todos nós correndo risco, não apenas o idoso.
Manter uma atividade com alegria em executá-la porque dá sentido às suas horas mantém a auto-confiança e auxilia a vencer obstáculos. Vencer os medos, reconhecer seus limites, procurar se escutar, saber se perceber, é verificar que a vela da vida ainda não se apagou. Ainda há luz no seu caminho e pode iluminar quem caminhar ao seu lado. Se deixarmos que a vela cumpra seu papel, a cera derreterá no tempo certo. Mas se a retirarmos de um lado para o outro, se o vento soprar apenas de uma lado, a vela queimará de forma irregular e pode se apagar antes da cera derreter por completo.
Saber pensar sobre suas escolhas, redescobrir a possibilidade de fazer novas escolhas e guiar-se no sentido de conviver com as diversas fases da vida, são formas de envelhecer crescendo. Por que não ver o ser humano como uma rosa que abre continuamente, até perecer?
O trabalho com pessoas nesta fase da vida vem mostrando que quando o encontro consigo mesmo ocorre, há um despertar para se ver como pessoa única, que sempre teve e terá um lugar próprio no mundo. Não é só na velhice que precisamos estar atentos, reconhecendo quem somos, quais nossos limites, etc. Mas talvez esta etapa nos obrigue a uma reflexão, a avaliar nossos projetos de vida. É a oportunidade de conseguir ir além, transcender a nós mesmos, refazendo nossos projetos ou criando novos, para a nova fase.
“… Da lentidão e da constância com que a árvore cresce”.
“O carvalho mesmo assegurava que só semelhante crescer pode fundar o que dura e frutifica; que crecer significa: abrir-se à amplidão dos céus, mas também deitar raÃzes na obscuridade da terra; que tudo o que é verdadeiro e autêntico somente chega à maturidade se o homem for simultaneamente ambas as coisas: disponÃvel ao apelo do mais alto céu e abrigado pela proteção da terra que oculta e produz”. Martin Heidegger – “O Caminho do Campo”
Sonia Maria C. Dutra

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Achei muito bom este artigo. Me ajudou a compriender melhor esta fase e a entender o que estou vendo na faculdade em psicologia sobre essa fase da vida. Parabéns !
Daniken
maio 31st, 2010
Realmente, é muito esclarecedora a forma como a autora escreve. Também gosto muito desse texto.
Um abraço!
Anna Paula Rodrigues Mariano, Psicóloga e Psicoterapeuta Existencial
junho 1st, 2010
Olá Boa tarde, sou psicóloga gostei muito do seu artigo.
Elecir Rosa
abril 11th, 2011
Boa tarde Elecir!
O artigo foi escrito por Sonia Maria C. Dutra. Eu também gostei muito da maneira clara e singela com que ela escreve sobre o tema, por isso postei aqui no site, para compartilhá-lo com vocês!
Um forte abraço
Anna Paula Rodrigues Mariano, Psicóloga e Psicoterapeuta Existencial
abril 14th, 2011
Felicitaciones, es bueno leer un artÃculo cuando este se sustenta en la experiencia y en el cariño.
Raúl Lorda
junho 16th, 2011
Muito obrigada Raul!
Anna Paula Rodrigues Mariano, Psicóloga e Psicoterapeuta Existencial
junho 18th, 2011