Reeducando o pensar
Diferentemente das terapias tradicionais e da Filosofia Clínica, a Terapia Existencial usa a reflexão filosófica para responder a grande questão do ser humano: qual é o sentido da vida.
Trechos da entrevista realizada pela revista Ciência&Vida-Filosofia com Dulce Critelli – professora titular de Filosofia da PUC-SP, articulista da Folha Equilíbrio (Folha de São Paulo), coordenadora do Existentia (Centro de Orientação e Estudos da Condição Humana) e autora de livros como Analítica do Sentido, Educação e Dominação Cultural e Todos Nós… Ninguém.
FILOSOFIA: O que é Terapia Existencial?
Dulce Critelli: Terapia Existencial é um processo terapêutico baseado na Filosofia da Existência, que venho desenvolvendo há algum tempo, mas cujo perfil mais decisivo começou em 2000. Um processo que encontra sua orientação e sua fundamentação teórica especialmente no pensamento de Hannah Arendt. A Terapia Existencial foi nascendo e se modelando aos poucos. E foi exatamente em sala de aula que compreendo o quanto e como a Filosofia da Existência pode esclarecer, orientar e ajudar as pessoas no percurso de sua vida. Os alunos me procuravam para dizer “professora, aquela aula mudou minha vida”, ou “aprendi a viver diferente”, ou “eu tinha um problema e consegui resolver”. De início eu ficava surpresa, especialmente porque não tinha nenhum propósito prático nem terapêutico com as aulas. Também, porque havia aprendido que a Filosofia é um saber abstrato e nada prático. Por intermédio de Heidegger comecei a entender o que acontecia. Diz ele, no capítulo I da Introdução à Metafísica, mais ou menos o seguinte: “A Filosofia não é útil nem prática e com ela nada poderemos fazer. Mas acaso não será ela que faz alguma coisa conosco?”. Comecei a querer entender como a reflexão, que é o modus operandi da Filosofia, podia fazer alguma coisa conosco. Também Heidegger me ofereceu a primeira luz, logo no início do seu artigo A época da imagem do mundo: “Filosofia é reflexão. E reflexão é a coragem de tornar o axioma de nossas verdades e o âmbito de nossos fins em coisas que, sobretudo, são dignas de serem chamadas em questão.” A Filosofia, então, nos faz rever nossas verdades, nossas crenças, nossos preconceitos, nossos valores e projetos. Isto é, ela nos faz pensar e nos ensina a pensar. Quando pensamos, transformamos nossas crenças e, consequentemente, transformamos o nosso jeito de viver. Hannah Arendt me fez ampliar esse entendimento. No seu artigo Compreensão e política, ela alude a uma diferença entre filosofar e compreender. Ambos são atos de pensamento, mas têm finalidades diferentes. Enquanto a Filosofia quer entender, por exemplo, o que é a felicidade, ou a morte, ou a verdade, a compreensão quer entender o que me faz feliz, qual o significado que minha morte tem para mim. Que verdade eu estou vivendo? A Filosofia é um pensar profundo na busca de significados últimos e sem pressa. E a compreensão é um ato de pensar que também busca o significado dos acontecimentos, mas responde às urgências da vida. Segundo Arendt, a compreensão se põe em movimento quando algum evento nos faz “perder nosso lugar no mundo” e, enquanto não compreendermos suas razões e seu sentido, não conseguiremos nos reconciliar com o curso da vida e nos reinstalar no mundo. Durante as aulas, então, acontecia um duplo processo de Filosofia e de compreensão. Começávamos pela Filosofia e alguns alunos acabavam por se inserir num processo compreensivo. Afinal, quem não é convidado a compreender a vida e a si mesmo enquanto filosofa? Sobremaneira quando o tema do filosofar é o sentido do existir ou, em termos mais corriqueiros, o sentido da vida? Temos então uma conexão possível: a Filosofia (da existência) pode subsidiar a compreensão do existir que, por sua vez, conduz a transformação concreta de um jeito de viver. Essa conexão é a base da Terapia Existencial.
FILOSOFIA: A Terapia Existencial é indicada par que tipo de problema (ou dilema)? No ranking dos motivos que levam alguém a procurar a Terapia Existencial, há algum problema em particular que se destaque e seja mais freqüente? Ela pode ser feita mesmo com pessoas que não tenham qualquer conhecimento de Filosofia?
Dulce: “Existirmos, a que será que se destina?”. O verso de Caetano Veloso expõe a pergunta que nos fazemos durante toda a nossa vida. Não ao os filósofos, mas todos nós (como indivíduos, como organizações) que nos preocupamos com nosso destino. A Terapia Existencial, então, é um processo indicado para todas as pessoas que se fazem essa pergunta. Ela serve para auxiliá-las nesse questionamento e para ajudá-las na busca de suas mais singulares respostas.
“O que vou fazer com minha vida?”, “Não sei o que quero para minha vida”, são maneiras desta interrogação fundamental. Tais perguntas podem se referir à vida como um todo ou podem ter direção mais clara, como os dilemas de vocação ou profissionais. Na maioria das vezes, não são nem tão diretas, nem tão lógicas. Podem aparecer revestidas pelos sentimentos de angústia, pela sensação de vazio, de tédio, de tristeza, até mesmo por um problema de saúde. Nas palavras de Arendt, esta inquietação aparece quando, de alguma maneira, nos sentimos deslocados na vida, no trabalho, quando sentimos ter perdido nosso lugar no mundo e precisamos, urgentemente, recuperá-lo. A Terapia Existencial busca responder a esta inquietação, mantendo o foco na construção biográfica. O pressuposto básico é que nosso eu ou o que chamamos de eu, não se resume à nossa pessoa, nem o encontramos dentro de nós, mas está espalhado ao longo de nossa história. Nosso eu se revela por meio de nossos gestos, feitos e palavras com os quais realizamos o percurso da nossa existência. Ele se mostra naquilo que aconteceu entre nós e os outros homens com os quais convivemos, de forma imediata ou não. Além disso, só se encerra com a nossa morte. Hannah Arendt nos lembra que nunca podemos dizer quem um homem é, mas apenas quem um homem foi. Enquanto vivemos, nossa biografia está em construção. É este percurso biográfico o lugar onde se encontram escondidas as respostas sobre o sentido da vida e o sentido que fazemos nela. A Terapia Existencial busca fazer essa exegese. Uma vez que nossa biografia é uma história em construção, toda interpretação do sentido dessa biografia é o que nos pode ajudar para o redirecionamento dos nossos rumos e destinos singulares.
FILOSOFIA: Existem outras linhas psicoterapêuticas que também se aproxima da Filosofia da existência. O que Diferencia a Terapia existencial dessas outras abordagens?
Dulce: De fato, há muitas linhas terapêuticas e psicoterapêuticas que recorrem à Filosofia Existencial. Entre outras, lembremos de Rogers, e sua psicoterapia centrada na pessoa; na influência que Lacan sofreu de Heidegger, não somente de Freud. Há também a Daseinsanalyse, que foi a minha primeira grande escola, e que consiste em uma reformulação da Psicologia, da Psiquiatria e da Psicoterapia essencialmente à luz do pensamento de Heidegger, realizada por Medard Boss e trazida para o Brasil pelo Dr. Solon Spanoudis. Em primeiro lugar, o que distingue a Terapia Existencial dessas linhas e de outras que não citamos aqui, inclusive da Filosofia Clínica, é o seu fundamento teórico, o fato dela estar baseada no pensamento de Hannah Arendt. Arendt é uma pensadora reconhecidamente ligada à teoria política, que não apresenta em sua obra nenhum propósito de refletir sobre a Psicologia, mas com uma hermenêutica da existência humana. Hannah Arendt pensa a política enfocando-a a partir de uma leitura da condição humana, de sua ontologia. Para ela, a política é uma atividade cuja finalidade é responder à condição humana da pluralidade, isto é, ao fato de os homens viverem e agirem em conjunto, de serem iguais entre si e, ao mesmo tempo, de serem indivíduos exclusivos, distintos de todos os que já existiram antes deles e de todos os que virão depois deles. Como a vida humana é sempre vivida em conjunto, a Política é uma atividade original, que implica no fato de os homens negociarem entre si as condições da vida pessoal e coletiva atreladas à pluralidade, estão outras condições humanas, tais como a vida biológica, a mundanidade, a Terra, a natalidade, a mortalidade e o condicionamento. A compreensão de tais condições é sempre o pano de fundo sobre o qual Arendt apóia suas análises e considerações sobre o que quer que seja. E em seus últimos trabalhos, cujos temas são mais particularmente filosóficos, desenvolve uma reflexão sobre as três faculdades do espírito – o pensar, o querer e o julgar –, que completam sua abordagem da condição humana. É todo este conjunto de seu pensamento que fornece as bases teóricas da Terapia Existencial. Em segundo lugar, há uma distinção de natureza prática entre a Terapia Existencial e os demais processos psicoterapêuticos existenciais. A meu ver, é a Psicanálise que fornece o modelo de base para a quase totalidade das práticas psicoterapêuticas. Por sua vez, a Terapia Existencia segue outro modelo, originário da Filosofia mesma. Sócrates é o seu modelo, ou melhor, o seu exemplo. Nisto, também sou fiel a Hannah Arendt, que elegeu Sócrates seu modelo de pensador. Só esta escolha já nos coloca numa outra região terapêutica, já nos acena com outro papel para o terapeuta, com outra finalidade para a terapia.
FILOSOFIA: Em que pontos a Terapia Existencial esbarra com a Psicologia e que características a diferencia desta?
Dulce: chamo atenção para o fato de que não estou usando a expressão “Psicoterapia”, mas “Terapia” Existencial. Do grego therapéia, terapia é uma palavra que quer dizer ‘assistir’, ‘cuidar’, ‘tratar’ ou ‘velar’ pelo ser. Este significado, que se mantém também no hebraico, indicava a atividade dos primeiros terapeutas. Interpretes das Escrituras, eles tinham as questões espirituais como seu objeto de cuidado. O uso da expressão terapia teve como primeira finalidade distinguir os cuidados espirituais, ou da alma, dos cuidados com o corpo, realizados pela medicina, que vem do grego iatriké. Na qualidade de interpretes das Escrituras, os terapeutas eram vistos por Fílon de Alexandria como aqueles indivíduos dotados da ‘arte da interpretação’. Os terapeutas eram aqueles homens que queriam ‘ver com clareza’. Por isso mesmo eles seriam, antes de tudo, hermeneutas, interpretes do sentido. É para esta explicitação de Fílon de Alexandria, que Jean-Yves Leloup chama a nossa atenção, indicando-a como a origem ou a fundação do mito do terapeuta. Para Leloup, embora tal compreensão de Fílon seja determinante em sua época, outras interpretações lhe eram contemporâneas: “… o terapeuta é um tecelão, um cozinheiro; cuida do corpo, cuida também das imagens que habitam em sua alma, cuida dos deuses e dos logoi (palavras) que os deuses dizem à sua alma (…). o terapeuta cuida também de sua Ética, isto é, vigia sobre seu desejo a fim de se ajustar ao fim que fixou para si; este cuidado ‘ético’ pode fazer dele um ser feliz, ‘são’ e simples (não dois, não dividido em si mesmo), isto é, um sábio (…) o terapeuta não cura, ele cuida.” (Cuidar do ser, p.24,25). O objeto da terapia é diverso, pois o que cabe na alma e o que cabe no ser, alvos originários da terapia, é indefinível. Cabem as angústias, as idiossincrasias, as loucuras, a Ética, os desejos, a felicidade, imagens, pensamentos, palavras. O objeto da terapia é indefinido. Nela o que é mais preciso é a sua própria atividade: cuidar, velar. Nenhuma prática ou ciência, assim, detém a propriedade da terapia. Para Fílon de Alexandria, o terapeuta tem por propósito compreender com clareza o ser, interpretar seu sentido, empreender uma hermenêutica do ser. Esse também é o propósito que instaura a Filosofia. E é este o fio que une, quase que naturalmente, a Filosofia Existencial à terapia. Lembramos que tal propósito compreensivo já está, também, em Sócrates.
A entrevista completa pode ser lida na revista Ciência & Vida FILOSOFIA, Ano III – no. 31 – Editora Escala

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Olá primeiro gostaria de parabenizar e agradecer pela publicação !Sou terapêuta de uma clinica de depência química, meu meio é muito limitado de informações sobre desfunção piscológica.
venho fazendo algumas pesquisas pela internet nos meus horários de folga para melhor direcionar os paciente em questão de motivação e absorvição de informação,hoje atravez dessas mesmas publicações venho criando algumas opniões e idologias concretas atravez da vivencia.tenho me deparado com grande dificuldade em relação aos meus superiores tais diretores da clinica mas sim atravez de toda a analise que faço como um todo só tenho a agradecer pois cada vez mais venho acreditando e apostando em meu trabalho obrigado!
Diego Cabral Apparicio
setembro 18th, 2010
Obrigada Diego, vamos nos falando!
Um abraço.
Anna Paula Rodrigues Mariano, Psicóloga e Psicoterapeuta Existencial
setembro 20th, 2010
oi,
iniciei recentemente terapia, e o foi escolhida para meu caso a existencial. gostaria de conversar mais, gostei do artigo, e estou em busca… enfim, por msn, alguém trocar idéias, seria muito bom
ROBERTA
maio 8th, 2011
Olá Roberta, infelizmente não utilizamos MSN… Mas dê uma navegada pelo site, você encontrará vários textos sobre a abordagem e se quiser, pode escrever para o nosso e-mail, que teremos prazer em responder!
paula@espacocuidar.com.br
Um abraço.
Anna Paula Rodrigues Mariano, Psicóloga e Psicoterapeuta Existencial
maio 12th, 2011